quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

O Congo na Barra do Jucu

2022, Apresentação da "Banda Raízes da Barra"
Enquanto expressão da cultura imaterial, o congo é uma das mais importantes manifestações afro-brasileira da Barra do Jucu. Tem sua origem nas manifestações culturais de povos indígenas e africanos escravizados no período colonial. De sua origem à sua transformação em patrimônio imaterial, o Congo sofreu perseguições e preconceitos de parte da sociedade “muito tradicional e conservadora, que confundia o congo com macumba, recriminava-o por causa da bebida, diziam que era coisa do diabo [...]” (GALVEAS, 2005, p.141). Sua prática e  permanência ao longo do tempo pode ser considerado um ato de resistência cultural.
A partir de entrevistas realizadas pelos estudantes da Escola Estadual Dr. José Moysés, A senhora Fátima, uma das gestoras do Centro Cultural Tambor de Congo, nos fala que “O Congo tem a parte romântica e tem a parte histórica. A parte histórica não é nada bonita”, referindo-se ao processo de violência e exploração dos povos negros e indígenas escravizados pelos colonizadores.

Memórial do Congo
Centro Cultural Tambor de Congo
O Congo é uma manifestação cultural presente em várias regiões do Espírito Santo e possui particularidades locais, ele traz em si elementos da cultura indígena, africana e do cristianismo europeu, "de modo geral, esses grupos são formados por homens e mulheres que tocam, cantam e dançam em sua maioria em uma disposição circular" (MACEDO, 2015, p15).  Sempre regidos por uma mestre e acompanhado por cantorias, os instrumentos utilizados, em geral são "tambores, casacas (ou reco-recos), chocalhos, caixas (ou bumbos), cuícas e apitos" (MACEDO, 2015, p15) regidos pelo mestre.
Conforme revelado pela sra. Fátima, durante o período colonial, cada ponto de congo referia-se a uma fazenda, Araçatiba, Caçaroca, a Serra e a própria Barra do Jucu, “todas elas tinham um propósito. Araçatiba era açúcar, a outra era verdura, então esses pontos, que hoje são bandas de congo, eram fazendas (...) que alimentava o coração, alimentava os jesuítas”. Referindo-se aos pontos de parada no transporte das mercadorias ela continua: “cada ponto de parada, formava uma comunidade, formava um congo, porque o congo é alegria, é festa".  

De acordo com Goreth Macedo (2021), também integrante do Centro Cultural Tambor de Congo os indígenas “já tinham o ritual do congo que eles chamavam a dança do tambor. Essa dança do tambor foi apropriada pelos negros também, porque eles foram escravizados juntos”, logo houve contribuição do negro e do indígena, povos escravizados, e dos europeus, interessados na cristianização desses povos.
Nas manifestações do congo, o sincretismo religioso está presente principalmente na referência aos santos da igreja católica: São Benedito, São Sebastião, Nossa senhora do Rosário, Nossa senhora da penha, dentre outros santos. Em especial, na Barra do Jucu, essa manifestação é voltada à devoção a São Benedito, um santo negro muito cultuado em festividades católicas com origem afro-brasileira. O congo da Barra do Jucu apresenta uma outra peculiaridade que diz respeito ao ritmo da tocada em correspondência “ao compasso das remadas de barqueiros e pescadores” (GALVÊAS, 2005, p. 36).

As melodias entoadas nas rodas de congo  sempre contam histórias locais, “falam sobre amores, sobre natureza, aqui na Barra onde começa uma roda e a gente começa a fazer o improviso, às vezes é aquilo que está acontecendo ali naquele momento, aí você brinca com aquela pessoa, e a pessoa devolve o verso pra você, aí ela conta de uma história que aconteceu naquela semana (MACEDO, 2021).

Atualmente são três bandas de congo na Barra do Jucu. Marina, professora da EMEF Tuffy Nader e membro da Banda de Congo “Tambor de Jacaranema”, nos conta que até 1990 era uma única banda. A primeira divisão ocorreu com a vinda do Martinho da Vila aqui, devido a diferentes opiniões em relação a gravação da música Madalena do Jucu com o cantor, formando então duas bandas, “Mestre Alcides” e “Banda de Congo da Barra do Jucu”. Em 1999 houveram novas divergências por ocasião da gravação do CD Opereta Cabocla, levando a “Banda de Congo da Barra do Jucu” a uma nova divisão, surgiram assim as bandas “Tambor de Jacaranema” e “Mestre Honório”.

A professora Mariana também atua como coordenadora da banda de congo mirim, organizada junto a estudantes da EMEF Tuffy Nader com o propósito de fortalecer a identidade e manter viva a tradição do congo enquanto expressão da cultura afro-brasileira na Barra do Jucu.

As principais festas de Congo da Barra do Jucu são a “Fincada do Mastro de São Benedito”, que acontece no último domingo do ano e a “Retirada do Mastro” no penúltimo domingo de janeiro. Conforme apontado por Galvêas (2005, p. 146), “o mastro tem um poder mágico para os participantes da festa, que fazem vários pedidos e acreditam no poder do santo para atendê-los. Por essa razão, ao ser fincado, os devotos colocam nele a palma de uma das mãos e, firmando o pensamento no santo, fazem seus pedidos e agradecimentos” (GALVEAS, 2005, p.146).

O cortejo das bandas de congo e a “fincada do mastro de são Benedito” tornou-se uma festa popular que envolve moradores da comunidade e visitantes. A professora Marina relata que a preparação da festa e do mastro se inicia um mês antes. O dia da festa é anunciado com fogos já às 6h da manhã. Na parte da tarde acontece o cortejo pelas ruas da Barra do Jucu. Cada banda de congo tem um local especifico de saída e encontram-se durante o cortejo, seguindo juntas durante o percurso, no trajeto cada banda realiza a fincada do mastro em um local específico. A Banda a banda Mestre Honório realiza a fincada na Igreja Nossa Senhora da Glória; a banda Mestre Alcides na praia e a banda Tambor de Jacarenema no pátio da Igreja São Pedro.









Fotos da Visita dos Estudantes à EMEF Tuffy Nader Onde Conversaram com a Professora Marina:













Nenhum comentário:

Postar um comentário