“Um balneário bucólico, apesar de ser próximo da cidade (OLIVEIRA, 2021), a Barra do Jucu possui um reconhecido potencial turístico não somente por sua paisagem, mas também por ser “um lugar que preza muito por preservar suas tradições culturais [como] o Congo e o Carnaval” (OLIVEIRA, 2021). Muitas dessas manifestações culturais possuem influência afro-brasileira, que remonta ao período colonial. Mesmo estando a grande maioria dos povos negros na condição de escravizados e consequentemente concentrados nas regiões agriculturáveis da antiga fazenda de Araçatiba, sua cultura navega pelo Rio Jucu e influencia diversas manifestações ao longo de toda a fazenda, inclusive a Barra do Jucu, o que é bem perceptível na devoção à São Benedito e nas práticas do congo e da Folias de Reis.
A Barra do Jucu é uma das comunidades mais antigas do Espírito Santo, uma vila de pescadores que séculos atrás compunha parte da grande fazenda Araçatiba fundada pelos Jesuítas e administrada no século XIX pelo coronel Sebastião Vieira Machado. A diversidade cultural dessa região habitada por africanos, indígenas e europeus, propiciou o surgimento de práticas populares como a Marujada, a Folia de Reis e as Bandas de Congo, que persistem até hoje nos municípios de Cariacica, Vila Velha, Guarapari e Viana, no passado, pertencentes à grande fazenda Araçatiba (MACEDO, 2015, p.17)
Antes da chegada dos portugueses, a região da Barra do Jucu, era habitada pelos Tupinaés, sedentários, e frequentada por Botocudos, Puris e Goitacás, povos nômades (GALVÊAS, 2005). A Barra do Jucu está localizada na foz do Rio Jucu integrado à antiga fazenda jesuítica de Araçatiba nascendo nas proximidades da Pedra Azul, atualmente município de Domingos Martins. O Rio Jucu, além de fonte de sustento para a população ribeirinha, serviu por muito tempo como meio de transporte para percorrer o extenso latifúndio da grande fazenda jesuítica de Araçatiba.
“A Barra do Jucu se encontrava numa posição privilegiada, localizada na foz de um rio muito piscoso, com bom manguezal, cercada de grandes matas ricas em caças e com o mar, também riquíssimo em peixes. Os peixes e as caças eram muitos, de todos tamanhos e das mais variadas espécies, pescados e caçados de muitas maneiras. A variedade (inclusive madeiras nobres) se via por todos os lados. Essa riqueza, apesar da exploração desordenada e da destruição do habitat natural, ainda é perceptível e ainda hoje há o que preservar” (GALVEAS, 2005, p.62)
A diversidade de povos presentes na formação cultural e histórica da Barra do Jucu, influenciaram as diversas manifestações culturais e as relações dos moradores com o lugar, como apontado por Carvalho (2021) a Barra do Jucu “é uma comunidade indígena, é uma fazenda […]” e “uma comunidade quilombola informal”.
“A Barra do Jucu mantém assim certa singularidade cultural. E passou, a partir dos anos 70, a ser escolhida como moradia de grandes personalidades e pessoas ligadas à cultura do nosso Estado; a sediar movimentos de vanguarda na área artística, como música, artes plásticas, teatro, literatura, incentivando o nosso folclore. Com toda essa movimentação, passa a ser reconhecido o valor da banda de congo, que ganhou espaço a partir de inícios da década de 80” (GALVEAS, 2005, p.137).
Um lugar, como a Barra do Jucu, cuja beleza natural e prazeres que ela proporciona são reconhecidos, o turismo massificado pode ser devastador por não levar em conta a identidade local. Reconhecer o potencial turístico por meio do patrimônio histórico e cultural, em caminho inverso, contribuirá com a valorização da identidade local, uma vez que a “cultura, o passado e o patrimônio não se vendem nem se compram e se se venderem ou comprarem, todo o sentido último subjacente à expressão cultural dos povos será expropriado” (DA SILVA, 2000, p. 221).
Assim considerado, o lugar em suas manifestações históricas e culturais não deve ser transformado em objeto de consumo sob o risco de perder da identidade. O turismo local precisa ser pensado de forma participativa e em parcerias colaborativas como forma de promover a valorização do patrimônio histórico cultural que possibilita o fortalecimento da identidade e do sentimento de pertencimento da população do lugar e, por conseguinte, a adesão e respeito dos turistas. Ainda conforme apontado por Da Silva (2000, p. 221),
[...] o desafio que se coloca ao turismo é o de utilizar os recursos patrimoniais numa perspectiva de desenvolvimento durável, assente em critérios de qualidade, para que os seus benefícios resultem numa efectiva melhoria da qualidade de vida dos cidadãos, tanto daqueles que o praticam como daqueles que o acolhem.
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