quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

O Projeto

Esse blog é resultado da pesquisa do Mestrado em Educação Profissional e Tecnológica – ProfEPT intitulada “Reflexividade Crítica no Ensino da História: Manifestações Afro-brasileiras e Turismo Cultural na Barra Do Jucu, Vila Velha/ES”. O Blog se apresenta como um guia antropológico de parte do patrimônio histórico e cultural da Barra do Jucu, o objetivo dele é potencializar o processo de ensino-aprendizagem dos estudantes do ensino médio, a atuação profissional dos guias de turismo e servir de fonte de formação e informações ao público interessado em reconhecer o potencial turístico da Barra do Jucu.

Neste espaço de comunicação destacaremos de forma pontual, o patrimônio histórico e cultural da Barra do Jucu por meio do trabalho de campo realizado pelos estudantes do 2º ano do ensino médio da Escola Estadual Dr. José Moysés, e estudantes egressos do curso de guia de turismo do Proeja Ifes campus Vitória, com apoio de professores e representantes da comunidade local. 

O conteúdo do blog foi produzido a partir das informações e imagens coletadas pelos próprios estudantes em visita a Barra do Jucu, que também contribuíram na construção do layout e identidade visual deste ambiente virtual.

Com a supervisão de professores, durante a visita técnica os estudantes entrevistaram pessoas da comunidade sobre aspectos históricos e as principais manifestações culturais do lugar, oportunidade em que também foram feitos registros fotográficos e vídeos diretamente relacionados com o roteiro previamente estabelecido a partir das aulas de história do Brasil com ênfase no conteúdo sobre a formação histórica do Espírito Santo.

Vamos juntos conhecer parte da história da Barra do Jucu? 

A Barra do Jucu: Território, História e Turismo Cultural

 “Um balneário bucólico, apesar de ser próximo da cidade (OLIVEIRA, 2021), a Barra do Jucu possui um reconhecido potencial turístico não somente por sua paisagem, mas também por ser “um lugar que preza muito por preservar suas tradições culturais [como] o Congo e o Carnaval” (OLIVEIRA, 2021). Muitas dessas manifestações culturais possuem influência afro-brasileira, que remonta ao período colonial. Mesmo estando a grande maioria dos povos negros na condição de escravizados e consequentemente concentrados nas regiões agriculturáveis da antiga fazenda de Araçatiba, sua cultura navega pelo Rio Jucu e influencia diversas manifestações ao longo de toda a fazenda, inclusive a Barra do Jucu, o que é bem perceptível na devoção à São Benedito e nas práticas do congo e da Folias de Reis.

A Barra do Jucu é uma das comunidades mais antigas do Espírito Santo, uma vila de pescadores que séculos atrás compunha parte da grande fazenda Araçatiba fundada pelos Jesuítas e administrada no século XIX pelo coronel Sebastião Vieira Machado. A diversidade cultural dessa região habitada por africanos, indígenas e europeus, propiciou o surgimento de práticas populares como a Marujada, a Folia de Reis e as Bandas de Congo, que persistem até hoje nos municípios de Cariacica, Vila Velha, Guarapari e Viana, no passado, pertencentes à grande fazenda Araçatiba (MACEDO, 2015, p.17)

Antes da chegada dos portugueses, a região da Barra do Jucu, era habitada pelos Tupinaés, sedentários, e frequentada por Botocudos, Puris e Goitacás, povos nômades (GALVÊAS, 2005). A Barra do Jucu está localizada na foz do Rio Jucu integrado à antiga fazenda jesuítica de Araçatiba nascendo nas proximidades da Pedra Azul, atualmente município de Domingos Martins.  O Rio Jucu, além de fonte de sustento para a população ribeirinha, serviu por muito tempo como meio de transporte para percorrer o extenso latifúndio da grande fazenda jesuítica de Araçatiba.

“A Barra do Jucu se encontrava numa posição privilegiada, localizada na foz de um rio muito piscoso, com bom manguezal, cercada de grandes matas ricas em caças e com o mar, também riquíssimo em peixes. Os peixes e as caças eram muitos, de todos tamanhos e das mais variadas espécies, pescados e caçados de muitas maneiras. A variedade (inclusive madeiras nobres) se via por todos os lados. Essa riqueza, apesar da exploração desordenada e da destruição do habitat natural, ainda é perceptível e ainda hoje há o que preservar” (GALVEAS, 2005, p.62)

A diversidade de povos presentes na formação cultural e histórica da Barra do Jucu, influenciaram as diversas manifestações culturais e as relações dos moradores com o lugar, como apontado por Carvalho (2021) a Barra do Jucu “é uma comunidade indígena, é uma fazenda […]” e “uma comunidade quilombola informal”.

“A Barra do Jucu mantém assim certa singularidade cultural. E passou, a partir dos anos 70, a ser escolhida como moradia de grandes personalidades e pessoas ligadas à cultura do nosso Estado; a sediar movimentos de vanguarda na área artística, como música, artes plásticas, teatro, literatura, incentivando o nosso folclore. Com toda essa movimentação, passa a ser reconhecido o valor da banda de congo, que ganhou espaço a partir de inícios da década de 80” (GALVEAS, 2005, p.137).

Um lugar, como a Barra do Jucu, cuja beleza natural e prazeres que ela proporciona são reconhecidos, o turismo massificado pode ser devastador por não levar em conta a identidade local. Reconhecer o potencial turístico por meio do patrimônio histórico e cultural, em caminho inverso, contribuirá com a valorização da identidade local, uma vez que a “cultura, o passado e o patrimônio não se vendem nem se compram e se se venderem ou comprarem, todo o sentido último subjacente à expressão cultural dos povos será expropriado” (DA SILVA, 2000, p. 221). 

Assim considerado, o lugar em suas manifestações históricas e culturais não deve ser transformado em objeto de consumo sob o risco de perder da identidade. O turismo local precisa ser pensado de forma participativa e em parcerias colaborativas como forma de promover a valorização do patrimônio histórico cultural que possibilita o fortalecimento da identidade e do sentimento de pertencimento da população do lugar e, por conseguinte, a adesão e respeito dos turistas. Ainda conforme apontado por Da Silva (2000, p. 221),

[...] o desafio que se coloca ao turismo é o de utilizar os recursos patrimoniais numa perspectiva de desenvolvimento durável, assente em critérios de qualidade, para que os seus benefícios resultem numa efectiva melhoria da qualidade de vida dos cidadãos, tanto daqueles que o praticam como daqueles que o acolhem.

Aula de Campo na Barra do Jucu

No dia 29 de outubro de 2021, eu, Rodrigo Moreira Campos, mestrando e professor da EMEFM Dr. José Moysés juntamente com a Professora Jamille Pereira Correia da mesma escola e o professor Aldo Rezende, professor do mestrado ProfEPT e coordenador de curso do Proeja Ifes campus Vitória, coordenamos a visita técnica dos estudantes do 2º ano do Ensino Médio da EMEFM Dr. José Moysés à Barra do Jucu que foi dividida em três territórios para fins de pesquisas, registros e estudos. A visita técnica também foi acompanhada por duas alunas egressas do curso técnico integrado em Guias de Turismo, Proeja, Ifes campus Vitória. O ponto de encontro de toda a equipe foi em frente ao Castelo da Barra, às 8 horas da manhã, onde já se encontravam o Senhor Mauro Lima, artesão e construtor do castelo, além do senhor Sebastião Sampaio, pescador da região, conhecido por Xaxá e o senhor Vinicius de Oliveira, morador da Barra do Jucu e estudante do curso de artes Plásticas da Universidade Federal do Espírito Santo. 

Após as boas-vindas e apresentações, foi realizada uma roda de conversas para reiterar o objetivo da visita técnica, assim como realizar a divisão dos grupos  de estudantes que, previamente organizados  durante as aulas, na escola, já sabiam de suas atribuições durante a visita técnica. Conforme apontado no mapa, cada um dos territórios foi assumido por um grupo de estudantes acompanhados por professores, lideranças do lugar e as guias de turismo.

  

Cada grupo realizou com bastante êxito as tarefas que lhe foram dadas. Às 11:30 finalizamos nossa visita com uma rápida conversa deixando a avaliação mais completa para ser realizada em sala de aula, o material coletado pelos estudantes serviu de base para a construção desse blog.

Sala de Aula: Formação do Brasil, do Espírito Santo e da Barra do Jucu

 A partir da base teórica da Pedagogia Histórico-Crítica buscamos construir as aulas em sala preparando para aula de campo com a visita técnica à região da Barra do Jucu. 

Concebemos a prática social como ponto de partida e de chegada da ação educativa, possuindo como elementos intermediários os momentos de problematização, instrumentalização e catarse. Nesse sentido buscamos o movimento dialético do singular-universal-particular entendendo que “a particularidade, como mediação, permite transformar a universalidade abstrata em uma totalidade concreta de determinações (particulares) vinculadas à natureza específica da singularidade do fenômeno ou objeto” (LAVOURA, 2018 p. 9). As singularidades trabalhadas, que são fenômenos em sua aparência, foram: o racismo, a memória e identidade afro-capixaba, os atrativos turísticos e o patrimônio histórico e cultural da Barra do Jucu e a memória e identidade da população da Barra do Jucu. O universal é a História Geral do Brasil e as particularidades que mediaram a relação entre singular e universal foram: A formação histórica do Espírito Santo; a História da Antiga Fazenda Jesuítica de Araçatiba; A história da formação da Barra do Jucu.

Construímos um arquivo (disponível para download em formato aberto e fechado ao final do texto) de slides através do Power Point para direcionar as aulas e diálogos na Sala de Aula.

Quando iniciamos as aulas no dia 23/09 a presença dos estudantes ainda era parcial com revezamento da turma em dois grupos (A e B), o que dificultou um pouco o andamento do projeto nos forçando a deixar alguns momentos idealizados no inicio de lado para garantir a aplicabilidade prática da pesquisa. Somente em 14/10, duas semanas antes de nossa aula de campo, que houve o fim do revezamento e podemos trabalhar com a turma integralmente. 

Buscamos partir da prática social dos estudantes, dialogando sobre a visão deles sobre as singularidades propostas nessa pesquisa, em especial, como eles percebem a desigualdade social e étnica na sociedade brasileira. Essa aula foi mediada e problematizada com os slides que trazia uma charge e dados estatísticos sobre a desigualdade.

Ambos os grupos foram unânimes antes e depois da problematização sobre a existência de desigualdades sociais e preconceitos raciais, porém alguns estudantes do Grupo consideraram que as desigualdades sociais independes da questão racial, entendendo que brancos e negros sofrem da mesma forma. Depois de analisarmos os dados houve uma aparente percepção por parte desse grupo de que as desigualdades sociais atingem em especial a população negra.

Depois iniciamos as aulas de História do Brasil mediado pelas particularidades até chegar à formação histórica da Barra do Jucu e às manifestações afro-brasileiras no Espírito Santo e na Barra do Jucu. Finalizamos em uma aula conjunta com a professora de artes Inara Novaes Macedo, membro da Banda de Congo Mestre Alcides e Mestre em Artes pela UFES cuja dissertação foi sobre o congo na Barra do Jucu, uma das referências dessa pesquisa.

Arquivo dos slides da aula em PDF

Arquivo dos slides da aula em PPT



O Congo na Barra do Jucu

2022, Apresentação da "Banda Raízes da Barra"
Enquanto expressão da cultura imaterial, o congo é uma das mais importantes manifestações afro-brasileira da Barra do Jucu. Tem sua origem nas manifestações culturais de povos indígenas e africanos escravizados no período colonial. De sua origem à sua transformação em patrimônio imaterial, o Congo sofreu perseguições e preconceitos de parte da sociedade “muito tradicional e conservadora, que confundia o congo com macumba, recriminava-o por causa da bebida, diziam que era coisa do diabo [...]” (GALVEAS, 2005, p.141). Sua prática e  permanência ao longo do tempo pode ser considerado um ato de resistência cultural.
A partir de entrevistas realizadas pelos estudantes da Escola Estadual Dr. José Moysés, A senhora Fátima, uma das gestoras do Centro Cultural Tambor de Congo, nos fala que “O Congo tem a parte romântica e tem a parte histórica. A parte histórica não é nada bonita”, referindo-se ao processo de violência e exploração dos povos negros e indígenas escravizados pelos colonizadores.

Memórial do Congo
Centro Cultural Tambor de Congo
O Congo é uma manifestação cultural presente em várias regiões do Espírito Santo e possui particularidades locais, ele traz em si elementos da cultura indígena, africana e do cristianismo europeu, "de modo geral, esses grupos são formados por homens e mulheres que tocam, cantam e dançam em sua maioria em uma disposição circular" (MACEDO, 2015, p15).  Sempre regidos por uma mestre e acompanhado por cantorias, os instrumentos utilizados, em geral são "tambores, casacas (ou reco-recos), chocalhos, caixas (ou bumbos), cuícas e apitos" (MACEDO, 2015, p15) regidos pelo mestre.
Conforme revelado pela sra. Fátima, durante o período colonial, cada ponto de congo referia-se a uma fazenda, Araçatiba, Caçaroca, a Serra e a própria Barra do Jucu, “todas elas tinham um propósito. Araçatiba era açúcar, a outra era verdura, então esses pontos, que hoje são bandas de congo, eram fazendas (...) que alimentava o coração, alimentava os jesuítas”. Referindo-se aos pontos de parada no transporte das mercadorias ela continua: “cada ponto de parada, formava uma comunidade, formava um congo, porque o congo é alegria, é festa".  

De acordo com Goreth Macedo (2021), também integrante do Centro Cultural Tambor de Congo os indígenas “já tinham o ritual do congo que eles chamavam a dança do tambor. Essa dança do tambor foi apropriada pelos negros também, porque eles foram escravizados juntos”, logo houve contribuição do negro e do indígena, povos escravizados, e dos europeus, interessados na cristianização desses povos.
Nas manifestações do congo, o sincretismo religioso está presente principalmente na referência aos santos da igreja católica: São Benedito, São Sebastião, Nossa senhora do Rosário, Nossa senhora da penha, dentre outros santos. Em especial, na Barra do Jucu, essa manifestação é voltada à devoção a São Benedito, um santo negro muito cultuado em festividades católicas com origem afro-brasileira. O congo da Barra do Jucu apresenta uma outra peculiaridade que diz respeito ao ritmo da tocada em correspondência “ao compasso das remadas de barqueiros e pescadores” (GALVÊAS, 2005, p. 36).

As melodias entoadas nas rodas de congo  sempre contam histórias locais, “falam sobre amores, sobre natureza, aqui na Barra onde começa uma roda e a gente começa a fazer o improviso, às vezes é aquilo que está acontecendo ali naquele momento, aí você brinca com aquela pessoa, e a pessoa devolve o verso pra você, aí ela conta de uma história que aconteceu naquela semana (MACEDO, 2021).

Atualmente são três bandas de congo na Barra do Jucu. Marina, professora da EMEF Tuffy Nader e membro da Banda de Congo “Tambor de Jacaranema”, nos conta que até 1990 era uma única banda. A primeira divisão ocorreu com a vinda do Martinho da Vila aqui, devido a diferentes opiniões em relação a gravação da música Madalena do Jucu com o cantor, formando então duas bandas, “Mestre Alcides” e “Banda de Congo da Barra do Jucu”. Em 1999 houveram novas divergências por ocasião da gravação do CD Opereta Cabocla, levando a “Banda de Congo da Barra do Jucu” a uma nova divisão, surgiram assim as bandas “Tambor de Jacaranema” e “Mestre Honório”.

A professora Mariana também atua como coordenadora da banda de congo mirim, organizada junto a estudantes da EMEF Tuffy Nader com o propósito de fortalecer a identidade e manter viva a tradição do congo enquanto expressão da cultura afro-brasileira na Barra do Jucu.

As principais festas de Congo da Barra do Jucu são a “Fincada do Mastro de São Benedito”, que acontece no último domingo do ano e a “Retirada do Mastro” no penúltimo domingo de janeiro. Conforme apontado por Galvêas (2005, p. 146), “o mastro tem um poder mágico para os participantes da festa, que fazem vários pedidos e acreditam no poder do santo para atendê-los. Por essa razão, ao ser fincado, os devotos colocam nele a palma de uma das mãos e, firmando o pensamento no santo, fazem seus pedidos e agradecimentos” (GALVEAS, 2005, p.146).

O cortejo das bandas de congo e a “fincada do mastro de são Benedito” tornou-se uma festa popular que envolve moradores da comunidade e visitantes. A professora Marina relata que a preparação da festa e do mastro se inicia um mês antes. O dia da festa é anunciado com fogos já às 6h da manhã. Na parte da tarde acontece o cortejo pelas ruas da Barra do Jucu. Cada banda de congo tem um local especifico de saída e encontram-se durante o cortejo, seguindo juntas durante o percurso, no trajeto cada banda realiza a fincada do mastro em um local específico. A Banda a banda Mestre Honório realiza a fincada na Igreja Nossa Senhora da Glória; a banda Mestre Alcides na praia e a banda Tambor de Jacarenema no pátio da Igreja São Pedro.









Fotos da Visita dos Estudantes à EMEF Tuffy Nader Onde Conversaram com a Professora Marina:













Peculiaridades do Carnaval na Barra do Jucu

Origem no início do século XX, o carnaval na Barra do Jucu começou por meio de brincadeiras realizadas em uma pequena vila de pescadores  e com o passar dos anos tornou-se um evento tradicional  com enredos voltados para a crítica política e  social.  

Durante entrevista concedida, Vinicius de Oliveira (2021) relatou que as pessoas fabricavam máscaras com o uso de papel e de cola de mandioca, ocasião em que se escondiam nos matos para em seguida sair pelas ruas assustando as crianças, divertindo adultos e se divertindo; desta forma, segundo o entrevistado, nasceu a tradição de carnaval de máscaras na Barra do Jucu.

OLIVEIRA, 2021. Máscara de Carnaval
Com o passar dos anos, o carnaval dos mascarados passou por transformações também influenciadas pelos pescadores que, ao deslocarem para vender pescado em Vitória, viram “bois correndo pelas ruas” e decidiram representar esta cena e incorporá-la ao carnaval dos mascarados. Desta forma, “o grupo que brinca de mascarados escondido, foi para os matos, pegaram um pedaço de pau da vegetação, fizeram as costelas do boi. Pegaram um arco de barril, cortaram, fizeram a costela assim. Pegaram um pano de estopa, botaram por cima. Pegaram a caveira de boi aqui nas fazendas e botaram a caveira de boi na frente da vaca e fizeram a estrutura, uma alegoria de uma vaca” (OLIVEIRA, 2021). A partir de então, durante o carnaval, a “vaca brava” passou a fazer parte da brincadeira dos mascarados correndo pelo no meio do mato, chamando a atenção dos moradores do lugar. Esta brincadeira deu origem ao “bloco dos mascarados”. Atualmente os foliões usando máscaras de borracha, ainda mantem a tradição de se esconder no mato e surpreender com a alegoria da vaca.

A tradição deu origem ao atual “Bloco dos Mascarados”, mas hoje os foliões dão preferência para mascaras de borracha, mantendo a tradição de se esconderem na mata e da alegoria da vaca.
Outra tradição do carnaval da Barra diz respeito ao fato de que no ano de 1985, algumas senhoras fizeram uma excursão para Aparecida do Norte e tiveram a infelicidade de comer uma maionese estragada que fez com que passassem mal na viagem de volta. Os mascarados, que eram em geral geração anterior das senhoras, ou seja, seus filhos, resolveram fazer uma “homenagem” surpresa para a situação e fizeram a alegoria de um ônibus “de madeira mesmo, assim com contraparte de jornal e escreveram ‘Barra do Jucu / Aparecida: CAGADOS NO BAILE’, ‘ônibus movido a bosta’. Botaram uns penicos no ônibus, assim, e esse ônibus saiu andando pela rua” (OLIVEIRA, 2021). Durante a brincadeira com o ônibus os foliões jogavam ovo com farinha em quem estivesse na rua que passaram a revidar. Desta forma, “a Barra, no dia seguinte, ficou inteira fedendo ovo podre” (OLIVEIRA, 2021). O sucesso dessa brincadeira fez nascer o “Bloco Surpresa” que cresceu e se tornou um dos carnavais de rua mais famosos do Espírito Santo. A característica do Bloco Surpresa é fazer as alegorias escondidas da população e apresentar de surpresa durante o carnaval com voltado para a crítica política e social.

O carnaval de hoje: programação 

Uma semana antes do carnaval tem o Bloco da Lama. Sua origem vem de pescadores que se sujavam de lama no mangue e saiam pelas ruas e sujando todo mundo, como não dá mais. Como hoje em dia “a lama do mangue que está poluída, [...] o pessoal compra barro, todo mundo se suja de lama e sai [...] correndo pra praia” (OLIVEIRA, 2021);

No sábado de Carnaval tem o Bloco das Piranhas, onde mulheres se vestem de homem e homens de mulher; 
No domingo tem um Bloco Surpresa; 
Na segunda tem o Bloco dos Mascarados; 
Na terça-feira o Carnaval encerra o Bloco Surpresa novamente.

Confira a entrevista com Vinícius de Oliveira na Íntegra:



A Ponte da Madalena

A “Ponte Velha”, foi batizada de “Ponte da Madalena” em homenagem ao Congo da Barra do Jucu nacionalizado na música de domínio público gravada por Martinho da Vila, “Madalena do Jucu”. A entoada da música é tocada em vários núcleos de congo da região metropolitana de Vitória e a própria figura folclórica da Madalena tem uma versão específica para cada uma dessas regiões. Na Barra do Jucu entrou para o imaginário popular como o amor proibido entre uma mulher casada e um conguista que lhe deu o pseudônimo de Madalena já que não poderia revelar quem era o fruto de seu amor (Procurando Madalena, 2010).

A ponte atravessava o Rio Jucu ligando a Barra do Jucu à Reserva Ambiental Parque de Jacaranema. Muito utilizada por pedestres e ciclistas, além de servir para os pescadores amarrarem as embarcações. Ela desabou em 03 de dezembro de 2017 em decorrência de fortes chuvas e permanece caída até hoje.

Foi construída em 1896 e até a construção da Rodovia do Sol, a Ponte da Madalena era a passagem para o litoral sul do estado e caminho para o Rio de Janeiro. Lilico Valadares em entrevista para Galvêas (2005, p.113) disse que "os meus mais velhos contavam que os escravos a haviam feito, carregando areia da praia na cabeça para fazer seus pilares". 

Rodrigues (2021) defende que “a Ponte da Madalena precisa ser, além da ponte, um olhar na reserva” que representa o ambiente natural da região, a fauna e flora que resistiu e precisa ser mantida.

O Rio Jucu

Principal rio de abastecimento para a população da Grande Vitória, o Rio Jucu era o principal meio de transporte da antiga “Fazenda de Araçatiba” servindo à população barrense como meio de transporte, fonte de alimento e de trabalho como barqueiros, transportando produtos, pessoas e ideias que circulavam pela antiga fazenda de origem jesuítica.

“Em Araçatiba havia um trapiche bem montado, que embarcava e desembarcava mercadorias. Muitos índios e mestiços tornaram-se barqueiros. Seus descendentes exerceram esta atividade até a construção da segunda represa da CESAN, para a captação de água. (6) Ao compasso das remadas de barqueiros e pescadores, se deve o ritmo da batida de congo das bandas da Barra do Jucu”. (GALVEAS, 2005,  p.36)

Sua nascente é em Domingos Martins e após percorrer os municípios de os municípios de Marechal Floriano, Viana, Cariacica e Vila Velha, deságua na Barra do Jucu, junto a Pedra da Concha. Em 1740 foi construído o canal de Camboapina, atualmente Rio Marinho, ligando o rio à Baía de Vitória, facilitando a comunicação da fazenda com a capital.  

O Rio sofreu nos últimos anos um forte processo de degradação “por esgotos, desmatamentos, assoreamento, agrotóxicos, lixo e pela intensa captação de suas águas para abastecer a Grande Vitória” (GALVEAS, 2005,  p.75).

Até 2016 acontecia a “Descida Ecológica do Rio Jucu” organizada pela Associação Barrense de Canoagem, o Consorcio Intermunicipal das Bacias dos Rios Santa Maria e Rio Jucu e o Instituto Ecobacias com o objetivo de chamar a atenção para a situação do rio, o movimento foi interrompido devido aos altos índices de poluição.






A Igreja Nossa Senhora da Glória

Igreja centenária, foi edificada entre 1900 e 1913 utilizando alvenaria de pedra e cobertura de telhas com forro de madeira, além de piso de ladrilho cerâmico. Uma senhora conhecida como Joaninha trouxe a imagem de Nossa Senhora da Glória e fez um oratório em sua residência que reunia os moradores para as orações, por isso o local se tornou a primeira capela. Em 1913 o Padre Bermudes fez a primeira reforma na capela, trocando o piso e construindo o altar em alto relevo (FERNANDES, 2013).

Rodrigues (2021) nos conta que ela quase foi tombada, porém isso não é mais possível devido a descaracterização de sua estrutura original.







As Ruas da Barra

Uma “Galeria Livre de Artes”, esse foi o nome do projeto que transformou muros residenciais e postes da Barra do Jucu em telas que retratam a cultura tradicional da região. Rodrigues (2021) nos conta que, inspirados nos muros da Escola Tuffy Nader que havia sido pintado pelo artista Toninho Natural, o “Museu Vivo” teve a ideia de construir um projeto que ao mesmo tempo que combatia um movimento de pichação na região serviria para fortalecer a identidade cultural da Barra do Jucu.

As ruas da Barra do Jucu entregam pistas do clima bucólico da região. Praticamente não há asfalto, o calçamento com blocos e paralelepípedos garantem a permeabilidade do solo a adicionam um charme a mais pra quem caminha por ali. Boa parte das construções refletem em sua arquitetura as especificidades da cultura local e muitos quintais são bem arborizados.